30-01-2009 Alberto Nogueira
Os anos 60
foram sem dúvida uma década marcante da qual tive
o
privilégio de fazer parte na minha juventude e que
guardo ternamente no baú das memórias. De vez em
quando `vou ao sotão´,
sopro-lhe o pó e quedo-me em
nostalgias.
Maio de 68,
Paris ao rubro, Lisboa vibrante, Elvis, minissaias,
Beatles, Shakes, Cat Stevens, twist, Roberto Carlos, as calças boca
de sino (já nos
70's), Rolling Stones,
rock&roll, Procol Harum, Otis Redding, Ray
Charles, discos de vinil,
os yippies – e a sua bela filosofia make
love
not war…, -a guerra nós também dispensávamos-
música, música e mais
música!
Os bailes na
colectividade do bairro eram o que nos faziam sonhar
ao longo das semanas que nos pareciam
intermináveis. Aos sábados,
o maneta do Alto do Pina fazia milagres
com a escova e o secador entre nuvens
de laca e conversas da treta.
Algum cuidado
ao dormir para manter o penteado.
Finalmente o
esperado Domingo, às 16h começava o bailarico no
Clube Musical União ao Alto do Pina em Lisboa, a minha
terra.
O fato de
olho de perdiz que
salta do guarda-fatos com destino às luzes
da ribalta, a camisa "TV" que bastava lavar e dispensava ferro, o
nó minúsculo na
gravata preta de malha, a
colónia Old Spice, a
graxa de última hora
nos sapatos domingueiros e o derradeiro toque no
cabelo lacado
(a brilhantina já estava demodée).
No palco do Musical ainda não tinha sido inventado o DJ mas alguém, (por vezes eu) ligava os últimos fios entre as colunas, o gira-discos e o microfone sem que faltasse o feedback estridente da praxe.
Havia que estrear o novo 45 rotações dos Creedence Clearwater Revival comprado na Valentim de Carvalho por 63$30 com fundos da Comissão de Bailes.
À volta da sala duas filas de cadeiras de madeira dispostas em “U”. Na frente as miúdas, quase sempre as mesmas, curvas conhecidas aos olhos e não menos ao tacto. Na fila de trás as mães, as tias, os(as) paus-de-cabeleira mais ou menos atentas guardiãs de virgindades. «Atenção, um, dois…,um, dois… Boa tarde! Sejam bem-vindos a mais esta matinée dançante no Clube Musical União, esperamos que se divirtam!» ou «…hoje abrilhantado ao som do conjunto 6 Latinos!!» ecoava literalmente na sala repleta de desejos inconfessáveis.
A primeira música era uma espécie de choque eléctrico nos rapazes espalhados pela sala que nos fazia saltar para o convite da ordem às miúdas nervosas e expectantes. «a menina dança?» era a frase mais usada pelos forasteiros apressados e mais conservadores. Um ligeiro aceno de cabeça à distância era o bastante para os habituées que nos fazia ultrapassar os menos afortunados que regressavam ao bar após uma ou várias negas humilhantes que nada abonavam os egos.
Quando a nega
me tocava a mim eu costumava
ripostar:
-Desculpa, não sabia
que eras coxa!...
Uma “miúda” com uns 25 anos era para mim uma mulher madura, como eu preferia, perante os meus 17, tornava-me mais crescido, mais respeitado pelos concorrentes, e ali estava ela perdida nos meus braços ao som lânguido e gemido de Jane Birkin naquele maravilhoso Je T’aime Moi Non Plus de ir às nuvens.
Depois havia os Tangos em que a escolha do par já merecia uma escolha mais criteriosa extra-volúpia. Aí surgiam os craques, mais velhos de porte esguio, alguns chulos de profissão, sapato de verniz e dama de salão como peixes na água. Faziam parte da mobília de todas as colectividades de recreio de Lisboa e arredores. Venerados por nós mais miúdos que não nos atrevíamos àqueles passes tão elaborados e ritmados que nos transportavam a Buenos Aires que já ouvíramos falar na TV a preto e branco.
Nos
slows, recordo-me da transição da mão na mão para outras
modas que abraçámos entusiasticamente com ambas as
mãos à volta dos corpos. Por vezes
era-nos recomendado um “maior decoro” pelo presidente
da colectividade «em prol da decência e dos bons
costumes», blá-blá-blá…
Mas outras
coisas logo aconteciam que eu não vou aqui contar em
prol dessa mesma decência e bons
costumes…
O anúncio ao
terminar uma dança aleatória de “damas ao bufete”
fazia abanar os tesos, que perante isso nada mais
lhes restava que levar a dama ao bar e
pagar-lhe uma LanranjinaC ou uma gasosa. A
Coca-Cola ainda não
tinha chegado a Portugal pois Salazar não deixava.
Havia que vasculhar os bolsos e encontrar cinco coroas,
as quais nem sempre
apareciam para embaraço do rapaz e impaciência da
miúda. Era tempo de voltar à sala aos primeiros
acordes dos Moody Blues. De novo o
doce calor dos corpos entre aromas de Bien Etre e
Patchouli que nos faziam
desejar não mais terminar aquele Nights In White
Satin.
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12-01-2009 Alberto Nogueira








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