Página Inicial Data de criação : 08/11/13 Última actualização : 10/02/24 19:15 / 121 Artigos publicados
 

CRÓNICAS DE ALBERTO NOGUEIRA

«Sábunêti?...»  (CRÓNICAS DE ALBERTO NOGUEIRA) Inserido Friday 30 January 2009 13:54

30-01-2009  Alberto Nogueira

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A menina dança?...  (CRÓNICAS DE ALBERTO NOGUEIRA) Inserido Monday 12 January 2009 13:14

Os anos 60 foram sem dúvida uma década marcante da qual tive o privilégio de fazer parte  na minha juventude e  que guardo ternamente no baú das memórias. De vez em quando `vou ao sotão´, sopro-lhe o pó e quedo-me em nostalgias.
Maio de 68, Paris ao rubro, Lisboa vibrante, Elvis, minissaias, Beatles, Shakes, Cat Stevens, twist,  Roberto Carlos, as calças boca de sino (já nos 70's), Rolling Stones, rock&roll,  Procol Harum,  Otis Redding, Ray Charles, discos de vinil, os yippies – e a sua bela filosofia make love not war…,  -a guerra nós também dispensávamos- música, música e mais música!

 

Os bailes na colectividade do bairro eram o que nos faziam sonhar ao longo das semanas que nos pareciam intermináveis.  Aos sábados, o maneta  do Alto do Pina fazia milagres com a escova e o secador entre nuvens de laca e conversas da treta.
Algum cuidado ao dormir para manter o penteado.
Finalmente o esperado Domingo, às 16h começava o bailarico no Clube Musical União ao Alto do Pina em Lisboa, a minha terra.
O fato de olho de perdiz que salta do guarda-fatos com destino às luzes da ribalta, a camisa  "TV" que bastava lavar e dispensava ferro, o nó minúsculo na gravata preta de malha, a colónia Old Spice, a graxa de última hora nos sapatos domingueiros e o derradeiro toque no cabelo lacado  (a brilhantina já estava demodée).

 

No palco do Musical ainda não tinha sido inventado o DJ mas alguém, (por vezes eu) ligava os últimos fios entre as colunas, o gira-discos e o microfone sem que faltasse o feedback  estridente da praxe.

Havia que estrear o novo 45 rotações dos Creedence Clearwater Revival comprado na Valentim de Carvalho por 63$30 com fundos da Comissão de Bailes.

À volta da sala duas filas de cadeiras de madeira dispostas em “U”. Na frente as miúdas, quase sempre as mesmas, curvas conhecidas aos olhos e não menos ao tacto. Na fila de trás as mães, as tias, os(as) paus-de-cabeleira mais ou menos atentas guardiãs de virgindades. «Atenção, um, dois…,um, dois… Boa tarde! Sejam bem-vindos a mais esta matinée dançante no Clube Musical União, esperamos que se divirtam!»  ou «…hoje abrilhantado ao som do conjunto 6 Latinos!!» ecoava literalmente na sala repleta de desejos inconfessáveis.

A primeira música era uma espécie de choque eléctrico nos rapazes espalhados pela sala que nos fazia saltar para o convite da ordem às miúdas nervosas e expectantes. «a menina dança?» era a frase mais usada pelos forasteiros apressados e mais conservadores. Um ligeiro aceno de cabeça à distância era o bastante para os habituées que nos fazia ultrapassar os menos afortunados que regressavam ao bar após uma ou várias negas humilhantes que nada abonavam os egos.

Quando a nega me tocava a mim eu costumava ripostar:
-Desculpa, não sabia que eras coxa!...

Uma “miúda” com uns 25 anos era para mim uma mulher madura, como eu preferia, perante os meus 17, tornava-me mais crescido, mais respeitado pelos concorrentes, e ali estava ela perdida nos meus braços ao som lânguido e gemido de Jane Birkin naquele maravilhoso Je T’aime Moi Non Plus de ir às nuvens.

Depois havia os Tangos em que a escolha do par já merecia uma escolha mais criteriosa extra-volúpia. Aí surgiam os craques, mais velhos de porte esguio, alguns chulos de profissão, sapato de verniz e dama de salão como peixes na água.   Faziam parte da mobília de todas as colectividades de recreio de Lisboa e arredores. Venerados por nós mais miúdos que não nos atrevíamos àqueles passes tão elaborados e ritmados que nos transportavam a Buenos Aires que já ouvíramos falar na TV a preto e branco.

Nos slows, recordo-me da transição da mão na mão para outras modas que abraçámos entusiasticamente com ambas as mãos à volta dos corpos. Por vezes era-nos recomendado um “maior decoro” pelo presidente da colectividade «em prol da decência e dos bons costumes», blá-blá-blá…
Mas outras coisas logo aconteciam que eu não vou aqui contar em prol dessa mesma decência e bons costumes…
O anúncio ao terminar uma dança aleatória de “damas ao bufete” fazia abanar os tesos, que perante isso nada mais lhes restava que levar a dama ao bar e pagar-lhe uma LanranjinaC  ou uma gasosa. A Coca-Cola ainda não tinha chegado a Portugal pois Salazar não deixava. Havia que vasculhar os bolsos e encontrar cinco coroas, as quais nem sempre apareciam para embaraço do rapaz e impaciência da miúda. Era tempo de voltar à sala aos primeiros acordes dos Moody Blues. De novo o doce calor dos corpos entre aromas de Bien Etre e Patchouli que nos faziam desejar não mais terminar aquele Nights In White Satin.

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12-01-2009   Alberto Nogueira

 

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Anos 60  (CRÓNICAS DE ALBERTO NOGUEIRA) Inserido Monday 12 January 2009 13:12

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