Página Inicial Data de criação : 08/11/13 Última actualização : 10/02/24 19:15 / 121 Artigos publicados
 

CRÓNICAS DE OFÉLIA SANTOS

O homem que morreu duas vezes  (CRÓNICAS DE OFÉLIA SANTOS) Inserido Friday 30 January 2009 13:49

 

 

                           O HOMEM QUE MORREU DUAS VEZES

 

Mais uma vez, olho o calendário. Falo para mim, ainda é Janeiro. E o tempo que não corre, penso e volto a pensar, como parece estúpida esta urgência nos meses do ano.

Fico a magicar. É do frio? É a chuva? O Sol que não brilha? Ou simplesmente o terror do Inverno?

Como gosto muito de traduzir pensamentos, corro para o papel e escrevo.

 

                            Primavera – Romântica - Paixão

                            Verão – Alegria -  Ilusão

                           Outono – Tristeza – Introspecção

                            Inverno – Frio - Depressão

 

Chocalhei tudo isto dentro da cabeça e concluí que só podia ser o frio do Inverno, que de todas as estações do ano, é mesmo esta que detesto. Só pensar nela aniquila-me, é como se o frio me entrasse pela cabeça e descesse até às unhas dos pés. Se calhar não é por acaso que assim penso. É que, logo que entra o Outono, acorda-me os “bicos de papagaio”, “maleita de família” e estes não são dos que falam, mas daqueles que se fazem sentir da pior forma.

Através da janela vejo que o Sol está brilhante e até parece quente. Logo desci até à rua e caminhei um pouco. Não tardou, apareceu a minha vizinha, também ela a queixar-se dos “bicos de papagaio” que tem nas costas e eu imediatamente pensei “ caramba, venho espantar os meus para que apanhem um pouco de Sol e agora vem esta trazer os dela!” Para disfarçar e mudar o rumo da conversa prontamente começo a falar noutros papagaios. Dos que não doem e até falam. Eis que surge o marido da vizinha, cabisbaixo, vindo do outro lado da rua e logo a mulher lhe perguntou o porquê de vir tão macambúzio. Diz ele “anda para aí a morrer muita gente. Imagina que ontem passei a porta da Misericórdia e estavam lá dois. Hoje, outros dois!” ao que responde a mulher em ar de graça, “um dia destes, estarás lá tu!” O meu vizinho não achou graça nenhuma “ como se isso fosse algo impossível” Logo eu para aliviar o clima começo a contar a História (verdadeira) do homem que morreu duas vezes.

Era o Tancredo, morava ao lado de um armazém que o meu pai possuíra por volta dos anos 40 início de 50. O Tancredo era uma figura tão invulgar, o que começava logo pelo nome. É só o que dele me recordo, pois era muito pequena. Mas as histórias do Tancredo foram contadas lá em casa vezes sem conta.

O meu vizinho lá se interessou e eu que já ia a divagar com os papagaios da África que trago no coração. Logo mudei para o humor negro, até porque o meu vizinho se agradou por saber como era isso de morrer duas vezes (deve ter ficado a pensar que isso até lhe podia acontecer) e assim com essa Esperança deixava de ficar tão apreensivo. Com o casal de ouvidos e olhos postos em mim começo a desfiar o rosário do Tancredo que não tinha só sido diferente na morte como durante a sua vida. Ao que parece, era um homem de extremos: tanto se ria a bandeiras despregadas fazendo rir quem estivesse por perto, como chorava copiosamente quando, sentado na porta da sua casa, ouvia na rádio um fado mais castiço ou mesmo uma história daqueles de faca e alguidar.

Tinha ele uma gargalhada tão peculiar que mais que uma vez foi convidado a sair da sala do Cinema onde estava a assistir a um filme cómico; bem, é que se fosse drama embora lhe viessem as lágrimas não seriam tão sonoras. Contava-se também que a certa altura fora com um grupo de amigos ao Teatro a Lisboa assistir a uma revista e que também aí foi convidado a abandonar a sala porque nem os artistas conseguiam trabalhar.

Era uma gargalhada tão sonora, estranha e prolongada que virava todas as atenções passando ele a ser o espectáculo para uns e a irritação para outros, mais interessados no que se tinham proposto a assistir. È claro que acabou por ganhar um outro nome também ele especial pelo qual viria a ser conhecido até ao fim da vida: o Galhofa. Lá ele se queixava que não tinha culpa de ser assim, tanto que gostava de ver aqueles filmes com o Vasco Santana, o António Silva, Beatriz Costa, etc.

Lamentava-se também por não poder ir com os amigos ver as Revistas a Lisboa; é que os amigos já nem o queriam levar, porque se sentiam de alguma forma envergonhados (naquele tempo era assim, as pessoas tinham vergonha, até daquilo que não valia a pena). O meu vizinho já estava impaciente, o que ele queria mesmo ouvir era o que lhe interessava a possibilidade de “morrer duas vezes” e eu que até me estava a divertir com aquela ansiedade, ainda ia dizendo, se fosse hoje o homem podia rir a vontade porque decerto teria TV, podia até voltar a ver os filmes antigos e coisas mais modernas, que algumas também dão para rir fazendo-nos esquecer as preocupantes situações que se relacionam com o futuro de todos.

Mas o meu vizinho só queria saber “como é que isso aconteceu, vizinha? “, perguntava ele impaciente pela morte do outro. Dada a ansiedade dos vizinhos lá prossegui.

Dizia então o meu pai que uma manhã, ao chegar à rua onde se situava o armazém, imediatamente viu uma movimentação estranha e logo lhe foi dito que o Galhofa tinha falecido. Muito espantado, ainda não tinha tido tempo de perguntar, já uma vizinha de lágrima no olho dizia “foi de repente”.

Como se sabe, no passado os mortos não eram velados em igrejas ou misericórdias, mas sim nas próprias casas. Tudo decorreu como normalmente e eis que é chegada a hora do funeral. Logo os familiares e os amigos mais chegados se empenharam na tarefa de levar em ombros o caixão. Lá ia o cortejo fúnebre a subir a escadaria de acesso ao cemitério, quando já no último lance da escada começa o caixão a abanar e a ouvir-se um estranho gemido. Assustados, os amigos que carregavam nos ombros a urna, deixam-na cair e aí vem a dita a deslizar escada abaixo enquanto o cortejo, atónito, abria alas para a deixar passar. Estavam todos tão petrificados que nem conseguiam emitir nenhum som. E assim a urna só parou de encontro à esquina de um prédio sem que antes ainda tivesse atravessado a rua.

Correm todos por aí abaixo e lá estava o Galhofa vivinho da Silva e sem vontade de rir, é claro, porque no acidente, apesar do acolchoado da urna, tinha partido uma perna. Durante muito tempo naquela vila piscatória não se falava noutra coisa.

Com tudo isto, o Galhofa ainda se riu e fez rir muita gente durante mais seis anos, altura em que sofre um ataque à semelhança do anterior só que desta vez, à cautela, esperaram mais horas para fazer o funeral, não fosse o Galhofa ter sete vidas e acordar outra vez!

 O meu vizinho lá achou graça e pareceu-me ter ficado menos apreensivo, a mulher esqueceu-se dos bicos de papagaio, eu notei que os meus tinham adormecido sob o efeito do analgésico que tinha tomado antes de sair e voltei para casa ainda a pensar em outras situações parecidas que aconteciam neste passado distante. Não que eu as visse de perto, mas durante muitos anos fui ouvindo falar delas.

Para mudar o rumo ao pensamento volto ao calendário, lembro-me que Janeiro está no fim e é só ter um pouco de paciência que logo, logo, chegará a Primavera ao meu jardim e ao meu Coração. Quanto ao resto logo se Vê!

 

  29 -1 -2009

  Ofélia Santos

Link permanente

Viagem Nocturna  (CRÓNICAS DE OFÉLIA SANTOS) Inserido Friday 09 January 2009 17:27

 Viagem Nocturna

 

Tiro a mão para fora e o frio que se faz sentir acorda-me da minha viagem nocturna.

Afinal, não subia a rua do Rosário nem se cruzava comigo a Gravana que fazia voar os meus longos cabelos negros. Caminhava lentamente levando na mão um disco da Rita Pavone e cantarolava o “Cadillac” do Roberto Carlos. Na rua, pairava o odor nauseabundo de óleo de palma a queimar. Enquanto me bamboleava um pouco ao som da minha musicalidade, abanava o nariz com o disco da Rita na tentativa de disfarçar aquele perfume tão familiar.

Ao tirar as pernas fora da cama sinto-me cansada. Afinal, não tenho por que estranhar tal facto: durante o sono atravessei o oceano, vivi uma aventura, até usei uma minissaia e uns saltos bem altos. A dor na perna era com certeza por ter caído do alto do meu 1m55 e 48kg de peso.

Tenho vontade de rir! Afinal este ontem foi só há quarenta anos e talvez por ser Inverno e não Gravana, ou mesmo pelo peso dos anos, desci uns centímetros, que nem percebo porque foram fugindo para a frente e para os lados em dobro. Ahahah!

 Ó meu Deus! Como eu era tão feliz e nem sabia!

 Olho o relógio que marca dez e trinta da manhã, um pouco tarde. Mas para quem se deitara de madrugada (e ainda por cima tinha andado a viajar durante o sono) não era assim tanto. O toque do telefone desvia-me os pensamentos. Do outro lado da linha surpreende-me um amigo de longa data, tão longa que fizera parte do tempo da Rita Pavone e conhecia a rua do Rosário e tudo ou quase tudo o que eu conhecera também. Gostei de ouvir a sua voz inconfundível, agora bem mais madura. Falámos de tantas coisas, dos amigos do passado, da vida presente e eu, de quando em vez, no meio da conversa, lá ia metendo a minha frase preferida, que repito vezes sem conta de há alguns anos para cá: “como éramos felizes e nem sabíamos!”.

Finda a conversa ficara a promessa de que agora que sabíamos um do outro voltaríamos a falar mais vezes. E, sabe-se lá porquê, os anos de 2007 e 2008 foram feitos de surpresas: outros amigos do passado distante me procuraram ou vice-versa, só que a distância do tempo e do espaço entre nós deixam-nos sem assunto e então as conversas ficam demasiado curtas. Contudo, fica-me sempre uma satisfação que me leva lá atrás ao tempo em que vivia-mos no mesmo Universo, tão pequeno, tão lindo, tão caloroso que os sentimentos entre todos eram de uma união quase familiar. Era como se o imenso oceano nos unisse fazendo como se fôssemos uma grande família e, tal como nas grandes famílias, havia os mais e os menos próximos. No entanto, ainda que mais não fosse íamo-nos cruzando pelas ruas ou nos espaços.

É meio-dia e eu, que me perdera com tudo isto, tinha-me esquecido do almoço. E agora, que fazer? Tinha dispersado tanto nos pensamentos que nem me ocorria nada. Daí então pensei comprar já assado um frango de churrasco ou não fizera também este prato parte daquele distante passado.

Hora de comer o churrasco. Afinal nada tinha de parecido com aquele que eu comera no tempo em que ouvia a Rita Pavone e cantarolava as do Roberto: faltava-lhe o picante e a rigidez da carne, em suma, faltava-lhe tudo e eu que não conseguia deixar de pensar na viagem nocturna e em tudo o resto.

De repente pensei: porque não escrever isto antes que uma qualquer esclerose ou Alzheimer me leve a memória? Por isso, aqui está esta curta viagem. As memórias são tantas que esta não enche sequer um grão de areia. Imaginem só que enquanto escrevo deito o rabo do olho para a TV, que se encontra na minha frente, e calculem o que vejo! Uma passerelle de modelos onde desfilam jovens de minissaia, longos cabelos, penteados e pinturas daquele tempo. Aí penso que o meu dia hoje mais não vai ser que a continuação da viagem nocturna. Será que tudo isto foi por acaso? Ou já teria sido aquele sonho a premeditar o meu dia? Caramba, até me apetece ouvir um disco de vinil daqueles que se ouviam lá em casa. É então aí que em fervorosa oração imploro ao Alzheimer ou à dita esclerose que não se lembre de mim. Ahahah. Agora é só ter fé na oração.

Depois do churrasco impõe-se a hora de sair à rua. Brrrr!! Está um Sol radioso mas o frio é de rachar. Pensando bem, o melhor é voltar para casa e hibernar. Assim faço. No meu espaço bem aquecido medito e retomo a viagem interrompida pelos afazeres que a vida impõe. Volto à Rua do Rosário, vou também à praia. Curioso. Lá também é Janeiro mas o calor é intenso. Só me apetece meter dentro de água e até já me sinto molhada, sinto que alguma coisa caminha sobre mim. Eis que acordo e é, nem mais nem menos, que o meu gato e o calor provocado pelo aquecedor tinha-me feito transpirar, pensei (que porra!) afinal sempre é melhor ir tomar um duche. Água, sempre é água em todos os lugares. Mas, igual àquela não existe outra em lugar algum.

E com este pensamento me fico. Ali, tudo é único, assim como são únicos todos os momentos da nossa vida.     

 

 6-1-2009    Ofélia Santos

 

 

 

 

Link permanente